IMAGENS DO SUL NO NORTE – BRASIL-ÁFRICA-EUROPA
Manfred F. Prinz - Justus-Liebig-Universität
Numa comunicação há quatro anos, no 3o congresso da ABRALIC, com o tema “Identificação e Heteronomia – o contexto afro-brasileiro” fiz alusão à literatura moçambicana, ao autor Mia Couto:
A minha raça sou eu, João Passarinho. (convidado a explicar-se , acrescentou:) Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia. (Mia Couto. Cada homem é uma Raça)
Um dos topoi que distingue a literatura africana em língua européia é o seguinte: a necessidade de identificar-se perante a impossibilidade de poder dar uma identidade porque a identidade é plural. Uma identidade é, além disso, sempre atribuída e aceita pelos outros, é resultado de um ato social, de um troco. No caso das literaturas africanas encontramos como traço fundamental o fato que as identidades são esboçadas a partir de modelos estrangeiros, no caso muitas vezes por modelos brasileiros, como demonstrei nas obras dos autores angolanos José da Silva Ferreira, Luandino Vieira, Oscar Ribas e Pepetela.
Seguindo nesta linha de idéias, vou tratar hoje mais uma vez de um texto africano de língua portuguesa, colocando-o nos mesmos parâmetros metodológicos: a teoria do pluricentro, concebida por Michel Clyne, segundo a qual já não existem centros e periferias, centros metropolitanos com normas indiscutíveis e infalíveis, e periferias com práticas híbridas e defeituosas. Nesta abordagem, revelam-se novas perspectivas como p.ex. a questão da auto-imagem dum determinado grupo lingüístico, que se explica ou se identifica por descrições endonormativas ou exonormativas, quer dizer por modelos externos ou por regras internas de funcionamento. Esta abordagem não vale só no campo das línguas, mas aplica-se também às diferentes formas de vida e culturas.
O segundo parâmetro será a da teoria do polysistema[1] e, em terceiro lugar, as abordagens das da chamada “pós-modernidade” nas quais vou realçar, esta vez, o aspecto heterotópico da sociologia de Boaventura Sousa Santos, analisando, agora, o próprio texto literário como campo de aplicação do modelo da “Câmara Paradigmática”:
A imaginação de tal debate na Câmara Paradigmática de Pasárgada 2 destina-se a desenvolver o campo das alternativas sociais práticas e a convocar as instituições educacionais a participar activamente nessa tarefa ensinando e investigando por igual os paradigmas em confronto. O reconhecimento do conflito paradigmático tem por objectivo precisamente reconstituir o nível de complexidade a partir do qual é possível pensar e operacionalizar alternativas de desenvolvimento societal.“ (346)
Nesta ótica, o texto literário destina-se -tanto como o campo social- a desenvolver “alternativas sociais práticas e a convocar as instituições educacionais (...) ensinando e investigando por igual os paradigmas em confronto” e em concorrência. A visão otimista e esperançosa de Boaventura Sousa Santos que desta concorrência resultam “alternativas de desenvolvimento societal” não se concretiza da mesma maneira em todos os casos. Muitas vezes, no caso da literatura, o caráter da Câmara Paradigmática se revela ex negativo, como ilustrará o nosso exemplo: a partir de um fundo catastrófico, de uma derrota total de sistemas de referência, num conjunto de opressões. Basta, neste contexto, lembrar os características da “situação colonial” (e também pós- e neocolonial) que segundo Georges Balandier define-se assim:
la domination imposée par une minoritée étrangère racialement et culturellement différente, au nom d’une supériorité raciale (ou ethnique) dogmatiquement affirmée, à une majorité autochtone matériellement inférieure. (Balandier: 41982: 34)
Ao nível dos exemplos literários gostaria citar um texto da literatura moçambicana, o romance intitulado Neighbours, publicado em 1994 tratando os eventos dramáticos num país que era durante os anos 80 e 90 o mais sofrido e mais carente no mundo, entre “a garra“ do sistema da apartheid, dos neighbours, dos vizinhos no Sul. Lília Momplé, representante de uma nação chamada “jovem“, quer dizer no olhar do Norte “política e diplomaticamente nascente“, criou no seu livro um tipo de diploma natalício, lavrado ao berço de uma nacionalidade futura“, nas palavras de Capistrano de Abreu, chamando assim a carta de Pero Vaz de Caminha, constituindo o primeiro traço literário da história literária brasileira.
Vamos, porém, ao decorrer da nossa análise descobrir diferenças, já neste momento evidentes: independentemente do contexto histórico, século XVI no primeiro e século XX no segundo caso, homem lá, mulher aqui, os dois aplicam perspectivas e olhares completamente diferentes: o primeiro fala como português sobre a nova terra encontrada, achada, outra fala como “indígena“, autora da terra, vivendo e sobrevivendo nesta terra perigosa e carente apesar de ser privilegiada depois tantos anos em Europa, mas falando as línguas da Ilha de Moçambique, lugar de nascimento em 1935, conhecendo intimamente as culturas, os costumes e condições de vida da gente Macúa e das outras regiões moçambicanas. Outra diferença pertinente: Enquanto os modelos e paradigmas das colônias americanas continuaram durante séculos ser europeus, desde Pero Vaz de Caminha até o fim do século XIX, os africanos -com a dependência prolongada e as independências tardias e dolorosas -sobretudo na parte lusófona (só em 1975 depois guerras que perduram até hoje p.ex. em Angola), os moldes deixam de ser os moldes europeus. Paradoxalmente, desde a primeira hora da independência, outros países do Sul, países ex-dominados, sofrendo as seqüelas do colonialismo, como o Brasil p.ex., tornam-se muitas vezes modelos -sobretudo para a inteligência africana- articulando as esperanças do povo.
Segundo uma das conclusões de Joaquim Nabuco, o modelo brasileiro permanece extremamente dependente da influência européia apesar este país já ter encontrado há mais de um século a sua independência política: “A nossa imaginação não pode deixar de ser européia, isto é de ser humano, ela não pára na Primeira Missa do Brasil, para continuar daí recompondo as tradições dos selvagens que guarneciam as nossas praias no momento da descoberta; segue pelas civilizações todas da humanidade como a dos europeus, com quem temos o mesmo fundo comum de língua, religião, arte, direito e poesia, os mesmos séculos de civilização acumulada, e portanto, desde que haja raio de cultura, a mesma imaginação histórica” (in: Santiago 1996: 62), acrescentaria: desde que haja raio de cultura escrita, mas no fundo e grosso modo concordo com este autor, sobretudo ao comparar as terras americanas às terras africanas. Aqui, a pesar da relativa autonomia deste continente, as vozes são múltiplas reclamando os modelos e semelhanças com outros países do Sul, criando moldes de vida e de sobrevivência a partir dos paradigmas sul-americanos. Porém, as diferenças persistem: Onde se encontram maiorias de habitantes falando línguas não-européias? Onde não encontramos uma tradição escrita e classificada conforme aos modelos europeus: barroco, romantismo, realismo etc? Só estes poucos aspectos demonstram o justificado do ponto de vista de Nabuco.
Só o Modernismo parece aplicar uma nova visão das realidades brasileiras, para “adotar como estratégia estética e economia política a inversão dos valores hierárquicos estabelecidos pelo cânone eurocêntrico“, “as nossas deficiências, supostas ou reais, são reinterpretadas como superioridades“ segundo Antônio Candido. Uma verdadeira e sólida política de identidade nacional, nos anos 30, só é possível, segundo Silviano Santiago, “caso esta esteja (...) abandonada em favor de uma política marxista: só essa é que questionará de maneira radical o modo capitalista que rege o mundo europeizado ontem e norte-americanizado hoje.” (64) Os padrões de análise ficam determinados pelos padrões europeus, da dicotomia comunismo-socialismo e capitalismo.
Só as “novíssimas gerações” questionam, por obrigação e falta de padrões esse modelo em vigor, a partir do momento do colapso do mundo soviético, simbolizado pela derruba do muro de Berlim e referindo-se à repercussão e às conquistas do multiculturalismo anglo-saxão (...)”(66). Esta referência ao acabamento da dicotomia ideológica e à necessidade de procurar novos rumos paradigmáticos na diversidade me parece interessante para a invenção e criação de uma nova heterotopia permitindo a concorrência livre de uma grande variedade de paradigmas, centrais e periféricos , dominantes e dominados.
Moçambique, nos anos 80 e 90, entra perfeitamente na definição de um país de identidade múltipla, ou de identidade nenhuma, dando espaço a inúmeros paradigmas e modelos de vida: os padrões dominantes mudando dentro de poucos anos, um substituindo outro arbitrariamente, depois a época colonial, com o padrão dominante da cultura portuguesa discriminando e oprimindo as identidades africanas, o país alcançou a independência formal após uma guerra prolongada de libertação a partir de 1961 até 1974, ano em que o regime fascista em Portugal acabou com a “revolução dos cravos”, considerado como “golpe de estado” pelos colonos: ocorreu uma primeira independência em 1975, com um governo centralista e monopartidário comunista, liderado pela FRELIMO (Frente de Liberação de Moçambique) aliado aos países de leste. Durante quase vinte anos Moçambique tornou-se num lugar de uma guerra civíl feroz, guerra chamada “de substituição”, em que os países capitalistas ocidentais lutaram contra o bloco comunista –e vice-versa-, cada um representado por um grupo político local: pela FRELIMO com apoio da União Soviética de um lado, e pela RENAMO, braço prolongado dos E.U. e do sistema de apartheid por outro. Uma segunda independência ocorreu depois do colapso do comunismo soviético e as primeiras eleições multipartidárias em 1994 sob supervisão e controle das Nações Unidas, abre-se uma nova era de aproximação aos países capitalistas e uma dependência do Ocidente. Depois do fim do referencial comunista soviético o país torna-se em terreno sob mandato de ONGs e organisações e estruturas internacionais e multinacionais, país liderado por um governo quase sem margem de manobra, dependendo das doações e decisões vindo de fora. As dependências que viveu Moçambique nos últimos quarenta anos são várias: colonialismo e fascismo portugueses, seguido do socialismo português, socialismo-comunismo internacional, mercado livre capitalista, organizações não-governementais, pluralismo de iniciativas políticas, religiosas e ideológicas de todos os horizontes. Esta situação representa não só um pluralismo de dependências, ao mesmo tempo ela significa uma concorrência grande de paradigmas, paradigmas dominantes e dominadas, transformando-se, invertendo-se e substituindo-se uns pelos outros. Parece um tipo de “patchwork” com várias pedaços, folhas e camadas, etiquetas e denominações cada vez novas e antigas ao mesmo tempo, escolhidas arbitrariamente na maior parte por forças dominantes exteriores e influências exógenas. Apesar deste período de transição contínua e indeterminado, marcado por realidades flutuantes e efêmeras, brota uma literatura nacional moçambicana, criam-se obras na área das artes plásticas, uma situação que destaca um país materialmente pobre, mas culturalmente rico, como o caracteriza Januário, um dos protagonistas do romance:
Aliás, eu acho que a única riqueza deste país agora é a sua cultura, a sua arte. O moçambicano já nasce artista! Só que, infelizmente, o artista não é considerado como merece. (81)
E a autora dá um exemplo pela seguinte anedota:
Vem-lhe, de repente, à memória o que ainda há pouco tempo presenciou, numa ocasião em que teve que ir ao aeroporto. Por curiosidade, foi espreitar a sala dos VIP e ali reconheceu dois ministros refastelados em confortáveis maples, rodeados de acompanhantes com quem conversavam despreocupadamente , enquanto o pessoal do Protocolo lhes tratava das bagagens, longe das suas vistas. Entretanto, nesse mesmo voo seguia o pintor Magalantana que, pacientemente, aguardava a sua vez na bicha do check in, carregando depois penosamente as suas malas para a sala de embarque comum. (82)
O próprio romance entra nessa concorrência entre dois tipos de capital diferente, demonstrando a capacidade de apresentar pela escrita uma amostra do “patchwork” da realidade moçambicana dos anos 80.
Ao decorrer do romance o leitor assiste a uma noite de três casais e famílias, cortada em cinco etapas, das 19 da tarde até as 8 da manhã:
Neste livro, inspirado em factos reais, descrevo o que se passa em Maputo, em três casas diferentes, desde as 19 horas de um dia de Maio de 1985 até 8 horas na manhã seguinte. (...) São pessoas comuns que desconhecem tudo sobre as que vivem nas outras casas. Todavia, têm o seu destino fatalmente interligado, mais uma vez, por vontade e por ordem do apartheid. (5)
Ao final dessa noite, Narguiss, Leia, Januário morrem, vítimas de um raid dirigido por Dupont, outro protagonista, que fica preso por causa de participação em ações fazendo parte de um plano de desestabilização a partir da África do Sul contra Moçambique. O mapa desenhado pela autora apresenta um país complexo e contraditório, ao mesmo tempo, caracterizado por vários tipos de vida, parâmetros socioculturais e econômicos de origens diversas, internas e externas, modelos em conflito mas –antes de tudo- em caminho de exterminação, ameaçados por forças inumanas e prejudiciais.
Vou agora citar exemplos de três campos diferentes representando valores materiais e simbólicos em concorrência e em conflito gerado pela situação colonial/neo-colonial.
No campo das religiões detectamos uma variedade de práticas: dos diversos cultos dos antepassados até as religiões católica e maometana. Durante a noite descrita no romance festeja-se o Ide, a festa maometana comemorando o fim do Ramadã, do mês de Jejum (11). O pai de Januário é um grande respeitador dos antepassados e tem “como principal ocupação o cumprimento escrupuloso do culto dos mortos”. Doma Florinda, madrinha de Januário, nos momentos de desespero, traída pelos maridos (sic!), “reza o terço todas as noites”(40), prática da religião católica. Os crentes desta religião assistem no início da guerra civil, à expulsão do bispo de Nampula, D. Manuel, por ter escrito uma “carta pastoral”, intitulada “Repensar a Guerra”, a qual foi lida em todas as igrejas católicas da diocese com a seguinte mensagem:
A guerra contra os moçambicanos que apenas queriam ser donos da sua terra não passava de uma guerra injusta e cruel. Estas temerárias afirmações só podiam provocar escândalo e grande animosidade entre a maioria dos colonos. (39)
No campo racial, campo de diferenças biológicas e sobretudo de epiderme, estamos assistindo a uma hierarquia nítida, valorizando as proveniências étnicas ligadas aos aspetos da cor de pele:
Em primeiro lugar os brancos, seguido pelos mauricianos (Dupont), indianos e os vários tipos de mestiços e mulatos (Fauzia e Mena), e, em último lugar, os negros (Romu).
Por exemplo Fauzia, a prima de Muntaz, é “filha de indianos mestiços, ela pertence àquele número de moçambicanos que foram apanhados desprevenidos pela independência do país. Perfeitamente adaptada à sua condição de colonizada com alguns privilégios, a idéia de Pátria é demasiado ampla para encontrar eco no seu horizonte estreito (...)”(30)
O relacionamento dentro dos casais, p.ex. entre Mena e Dupont, é também fundamentalmente marcado e determinado por critérios da raça. Dupont e sua família, todos mauricianos, aceitam com muita reserva a noiva mulata Mena:
Mena nunca compreendeu em que se baseiam tais convicções racistas, visto todos os mauricianos lhe parecerem mulatos, embora alguns com cabelo quase liso. O que não tardou a compreender foi que, por não ser mauriciana, pelo menos de origem, não passava de uma intrusa no meio daquela gente. (47)
Mas esta classificação não tem uma lógica rígida porque mesmo brancos podem ser excluídos por razões ideológicas e políticas, como no caso do bispo D. Manuel:
Para Januário, o facto de um branco tão importante como o bispo de Nampula ser expulso por outros brancos, por causa dos negros, era certamente prenúncio de algo novo no mundo em que vivia. (39)
Do outro lado, Romu, apesar de ser negro, considerando-se “preto por engano”(67) pode fazer carreira e lucro colaborando com os poderes coloniais e racistas:
Quanto ao jovem, aceitou o serviço militar como uma aventura, até mesmo quando foi selecionado para os Comandos, tropa de elite, famosa pela sua audácia e extreme crueldade. (...) Não podia sequer conceber que aquela “corja de negros miseráveis” quisesse ser independente em vez de agradecer aos portugueses o encargo de a governar. Ele próprio era negro mas “sabia ver bem as coisas” e, aliás, tudo daria para ser branco. Estava, enfim, preparado para ser um bom comando. (64)
Os conflitos raciais e suas resoluções atuam-se no pano de fundo de um mundo dividido em países economicamente ricos e pobres, com mais capital simbólico – às vezes independente do capital econômico como no caso de Portugal que, no momento da independência, torna-se terra de refúgio, não por causa da importância econômica mas por causa do seu papel histórico, sociocultural e político durante a história colonial. Os “oriundos do Sul” gozam do maior prestígio por causa do valor econômico, e a África do Sul é considerada como país mais evoluído, permitindo-se terrorismo e atrocidades em nome do progresso, pretendo “ajudar os moçambicanos a sair do atraso (...) só apoiar a liquidação de alguns indivíduos incômodos por os vizinhos e amigos sul-africanos que só queriam ajudar Moçambique”(50).
Além do fato o capital cultural não valer tanto como o capital econômico, nota-se dentro das moedas concorrentes a grande desigualdade entre a moeda moçambicana, o metical, e a da África do Sul, o rand. Os agentes trabalhando para o sistema de apartheid são pagos em rand para um trabalho bem dotado e reputado: Romu consegue convencer Dupont da qualidade do trabalho e do “taco” que ganha num ambiente de desconfiança total:
Agora só lhe posso adiantar que tenho uma boa parte proposta para si. São mil e quinhentos rands por mês, fora os extras para cada trabalho que... – continuou Romu, quase em surdina.
Mas...você nem me conhece. Não estou a perceber.
Você é que não me conhece mas eu conheço-o. Sei quem você é e parece ser a pessoa própia para esta oferta.
Continuo sem perceber. Porquê a mim? – insistiu Dupont.
O que eu conheço dá para perceber que você merece. E...diga lá amigo, precisa ou não de taco?
Taco faz falta a qualquer gajo...
Isso mesmo, Até aos ricos. E este é um taco de verdade, não essa coisa de metical que não vale nada – replicou Romu (...) (50)
A promoção profissional não é prometedora num povo em grande parte analfabeto e formando-se em cursos noturnos e não-formais vivendo no campo com “machambas exhaustas”(52). O exemplo de Januário, mais uma vez, demonstra como entram em choque dois mundos e dois modelos de vida quando ele abandona a aldeia e os padrões tradicionais para chegar em Nampula onde ele encontra um emprego domestico, única opção para “camponeses analfabetos”: O trabalho forçado dos tempos coloniais está substituído por outra forma de exploração:
O seu próprio pai foi levado duas vezes para o trabalho forçado e, ainda hoje, Januário tem bem presente a sua imagem, desaparecendo na curva do carreiro entre dois sipaios, de cabeça caída, sem um queixume. (...)
Quando tinha catorze anos, (a mãe) o convenceu à revelia do marido, a partir para Nampula, à procura de emprego. O pai desejava que Januário fosse camponês como ele e como o seu pai e como o pai do seu pai. A mãe, porém, ansiava para o único filho, que lhe restava outro destino, qualquer que fosse, pois tudo the parecia melhor do que aquela amarração a uma terra caprichosa, atreita a chuvas e tempestades fulminantes que, poucas horas, arrasavam o trabalho de vários meses. Além disso, assustava-a a perspectiva de um dia o ver levado para o trabalho forçado. (35-36)
Outro exemplo da impossibilidade de levar uma vida digna nos constrangimentos materiais é Leia, quem se vê obrigada à prostituição para conseguir um flat, imitando outras colegas que conseguiram desta maneira alguma coisa na vida:
Sabia de algumas colegas que, para poderem alimentar os filhos, se entregavam regularmente a qualquer homem que lhes desse dinheiro. (19)
O país vizinho, África do Sul, oferece principalmente de dois tipos de trabalho: aquele trabalho desonesto e bem remunerado em redes de sabotagem e terrorismo (os casos de Dupont, Zalíua e Romu) e o trabalho duro e desumanizante nas minas, escolhido pelo pai do próprio Zalíua:
Estava ainda Zalíua no ventre de Theasse quando o pai foi para as minas do John (Joanesburgo), cansado de trabalhar de sol a sol, sem nenhum proveito. (...) O dinheiro prometido jamais chegou e as notícias que, de vez em quando, se espalhavam pela provocação, eram contraditórias mas sempre alarmantes: Garantiam uns que o homem de Theasse tinha morrido soterrado na mina onde trabalhava, outros que fora assassinado durante uma rixa, outros ainda que se havia juntado a uma sul-africana gorda e feia mas amante na pândega, com quem embebedava alegremente nos dias de folga. (52)
Com a poesia Pau –Brasil escrita por ocasião da descoberta anacrônica do Brasil em 1923, Oswald de Andrade descobriu a sua própria terra numa viagem a Paris. Nesta poesia ele faz referência intertextual à Carta de Pero Vaz de Caminha, citando e variando uma parte da Carta, em interpretando os índios da Carta como prefigurações das meninas de rua que encontra em Paris:
Com abelo mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tinhamos nenhuma vergonha. (Andrade 1972: 18, in: Armbruster 1999: 9 )
Se segundo Joaquim Nabuco a história e a perspectiva da história das “jovens nações, quando o mundo as atrai, é necessariamente lacunar e eurocêntrica” (Santiago 1996: 62) e – diria eu – eurocentrada, vale isso tanto para Pero Vaz de Caminha quanto para os Modernistas: “a imaginação não pára na Primeira Missa do Brasil”(ibid.). Só as “novíssimas gerações” (id.: 65) se desfazem dos antigos modelos questionando os cânones correspondentes.
Então: Neighbours, um “diploma natalício de Moçambique?
Não, porque não era alheio que confeccionou este documento, foi feito pelo próprio nascido! Então, trata-se de um documento autentiquíssimo, sim então, é o diploma natalício, um verdadeiro documento de introspecção, de uma visão do mundo moçambicano pelas vísceras, mostrando todos os elementos e processos de decomposição acompanhando um parto, descrevendo ao mesmo tempo a multiplicidade e a derrota dos paradigmas e possibilidades de vida, das identidades impostas, pelos alheios, vizinhos, dos opressores e exploradores, que fornecem ao mesmo tempo fontes de capital e de subsistência: Moçambique, encerrado numa “garra”, que foi escolhida pela autora para ornar a capa do livro, representando simbolicamente a situação de Moçambique:
Foi então que, um dia, ao apreciar uma exposição da pintora Catarina Temporário, até aí completamente desconhecida para mim, deparei com um quadro estranhamente sedutor. A tela era inteiramente ocupada por uma garra adunca e envolvente, pintada em tons carregados de uma agressividade cruenta. O título da obra era “Neighbours”e referia-se à sinistra vizinhança do apartheid. (5-6)
Papel ambíguo, processo doloroso, sem perspectiva, mas aberto, semelhante à situação da Mena no fim do romance, depois de ter denunciado o próprio marido:
Ao fecher a porta da casa, ela sabe que acaba de encerrar também o seu passado e dá os primeiros passos para um novo e imprevisível destino. (105)
Referências Bibliográficas:
ARMBRUSTER, Claudius. Literatura na Terra: Iberische, portugiesische und/oder brasilianische Literatur im 16. Und 17. Jahrhundert. In: ABP-Zeitschrift zur portugiesischsprachigen Welt 2/1999: Identitätsdiskurse-Intertextualität und Intermedialität in Brasilien und Portugal, p. 5-24.
BALANDIER, Georges. Sociologie actuelle de l’Afrique noire. Paris 41982.
BOURDIEU, Pierre. La Reproduction, élements pour une théorie du système d’enseignement. Paris 1970.
CLYNE, Michael (Ed.). Pluricentric Languages. Differing Norms in Different Nations.Berlin/New York (Mouton de Gruyter) 1992.
COUTO, Mia. Cada Homem é uma raça. Lisboa 21992.
Even-Zohar, Itamar. “Polysystem Theory”. In: Poetics Today. (Vol. 1-2), vol. 1. Tel Aviv 1979.
MAIA FERREIRA, José da Silva. Espontaneidades da minha alma. 1949
MOMPLÉ, Lília. Neighbours. Maputo (Associação dos Escritores Moçambicanos) 1994.
PADILHA, Laura Cavalcante. Entre Voz e Letra. O lugar da ancestralidade na ficçâo angolana do século XX. Niterói 1995.
PEPETELA. Geraçâo da Utopia. Lisboa 1992.
SANTIAGO, Silviano. “Atração do mundo (Políticas de identidade e de globalização na moderna cultura brasileira”. In: ABP-Zeitschrift zur portugiesischsprachigen Welt 2/1996: Formen literarischer und kultureller Modell- und Kanonbildung innerhalb der portugiesischsprachigen Welt Afrika, Brasilien, Portugal, p. 58-68.
SOUSA Santos, Boaventura de. Pela Mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade. São Paulo 1995.
VIEIRA, Luandino. Luuanda. Lisboa 1981.
[1] A segunda referência é a “teoria do polisistema“ do semiotista israelense Itamar Even-Zohar, que , em termos de áreas literárias e culturais da a seguinte explicação:
“The literary polysystem like any other of a cultural semiotic nature, is simultaneously autonomous and heteronomous with all other semiotic co-systems. The constraints imposed upon the literary poly-system by its various semiotic co-systems contribute their share to the hierarchical relations governing it.” (1979: 301)